[06/06/05] Entrevista com Rosa Maria Alves Chichorro - Técnica Jurídica
 

Rosa Maria Alves Chichorro
Técnica Jurídica

Quando, na busca de uma carreira ideal, a realização profissional é mais importante

Por Ari Moro

A carreira profissional da Técnica Judiciária Rosa Maria Alves Chichorro, atualmente ocupando a função de Diretora do Serviço de Admissão e Desenvolvimento Pessoal e Gerencial da Secretaria de Recursos Humanos do Tribunal Regional do Trabalho da Nona Região/Paraná, é uma lição para tantas pessoas que estão à procura de um meio de vida e se deparam com dúvidas sobre qual direção seguir, receosas de enveredar por um caminho que as leve a uma frustração profissional.

Rosa Maria, depois de todo o habitual sacrifício que leva uma pessoa a obter um diploma de curso superior na área de engenharia, optou por uma carreira profissional na qual era exigido dos candidatos ape-nas escolaridade de segundo grau.

Mas hoje, satisfeita com a sua decisão afirma que uma pessoa não deve se sentir diminuída ou coisa que o valha se tiver que tomar uma atitude igual à sua.

A trajetória de Rosa Maria pelo caminho dos concursos públicos não foi fácil, pois, por vezes apesar de ter obtido aprovação não foi convocada para assumir o cargo.

Natural da cidade de Cruzeiro do Oeste/PR, foi em Porto Alegre/RS que ela teve a primeira e pode-mos dizer decepcionante experiência em concursos públicos, ao candidatar-se ao cargo de engenheira do aeroporto local. Foi aprovada em sexto lugar, mas, nunca foi convocada para assumir.

Em 1990 tentou novamente, desta vez no concurso de Técnico do Banco Central do Brasil, tendo sido aprovada e classificada em 104º lugar, mas, da mesma forma, não foi convocada.

Em 1994, desempregada, mudou sua residência para Curitiba/PR, aqui realizando concursos públicos de Técnico Judiciário do Tribunal Regional do Trabalho/Nona Região e de Técnico do Banco Central do Brasil. Obteve aprovação nos dois, classificando-se em 88º lugar no primeiro e em 41º lugar no segundo. Desta vez teve mais sorte e foi convocada primeiramente pelo TRT, onde existiam exatamente 88 vagas, apesar de ter obtido melhor classificação no do Banco Central.

Ressalte-se que, o concurso do TRT exigia dos candidatos apenas escolaridade de 2º Grau enquanto que o do Banco Central, escolaridade de 3º Grau . No entanto, Rosa Maria optou pela Justiça do Trabalho, pois, vislumbrou que ali seria o lugar propício para sua realização profissional, em virtude das características das atividades do órgão e das habilidades que ela mesma tinha no relacionamento interpessoal.

Finalmente, em 19 de agosto de 1994 Rosa Maria concluiu a sua caminhada pelos concursos públicos e assumiu o cargo de Técnica Judiciária na Vara do Trabalho de Colombo/PR. Ali passou a realizar trabalho de apoio judiciário e administrativo, de digitação e redação de expedientes, de movimentação, guarda e arquivamento de processos e de informação ao público.

Já em 1995 foi removida à Quinta vara do Traba-lho, em Curitiba e em 1996 foi convidada para traba-lhar na recém-criada Secretaria Integrada de Execuções - SIEx.
 
"Cada vez mais a minha vocação de trabalhar com pessoas e de lidera-las pode ser exercida, aperfeiçoada e desenvolvida." 

“Como a execução trabalhista envolve cálculos, sendo atividade não repetitiva que exige muitos conhe-cimentos e dinamismo, optei por deixar aquilo que já conhecia e dominava dentro da minha carreira e aceitei esse novo desafio, apesar de não possuir formação na área jurídica, mas, visando aprofundar meus conhecimentos na área de Direito Processual do Trabalho.”

O bom desempenho de Rosa Maria na nova função levou-a a ser convidada para assumir, em 1997, a chefia do Setor de Embargos daquela Secretaria. “Foi um período – acrescenta – extremamente importante na minha carreira profissional, pois, além da necessidade de adquirir novos conhecimentos passei pelo desafio de coordenar uma equipe de trabalho, algo semelhante à atividade que desenvolvia quando estudante universitária e depois de formada em engenharia, como educadora na área de formação de jovens.”

Ela permaneceu na função até 1999, quando aquela Secretaria – SIEx – foi reestruturada e desmembrada em seis Subsecretarias, tendo assumido o posto de Assistente de Direção da Quinta Subsecretaria. “Cada vez mais a minha vocação de trabalhar com pessoas pode ser exercida, aperfeiçoada e desenvolvida.”

Em maio de 2000, Rosa Maria passou a traba-lhar no Serviço de Preparo de Pagamento de Pessoal, da Secretaria de Recursos Humanos, e em setembro do mesmo ano, assumiu a chefia do Setor de Treinamento e Capacitação de servidores do TRT. Em novembro de 2002 assumiu a Direção do Serviço de Assistência, Benefícios e Capacitação, passando posteriormente à função de Diretora do Serviço de Admissão, Desenvolvimento Pessoal e Gerencial.

UMA OPÇÃO

“Apesar de possuir formação escolar de nível superior – relata Rosa Maria – quando fiz o concurso público do TRT optei pelo cargo de Técnico Judiciário, que exigia dos candidatos apenas o segundo grau, porque nesta posição eram oferecidas 88 vagas, enquanto que na de Analista Judiciário, que exigia curso superior e consequentemente o salário era maior, as vagas somavam apenas 4.”

“Não vejo como um constrangimento o fato de uma pessoa que possui formação superior em qualquer área realizar concurso público de segundo grau. Vi, isto sim, a minha grande chance de ingressar numa carreira onde poderia realizar-me profissionalmente e fazer aquilo que gosto. Às vezes as pessoas são sedu-zidas pela chance de ter um salário maior, esquecendo-se da possibilidade futura de progresso que um emprego pode oferecer. O serviço público oferece muitas chances. No caso da Justiça do Trabalho, o Técnico e o Analista Judiciário podem desempenhar a mesma tarefa, apesar do salário diferente.”

O concurso realizado por Rosa Maria no TRT foi extremamente concorrido, pois, existiam 367 candidatos por vaga.

 

““Mesmo desenvolvendo um serviço burocrático, o servidor deve procurar a sua realização profissional, executando bem a sua tarefa, aumentando seus conhecimentos e aprimorando as suas relações interpessoais, que são a fonte de realização pela convivência com colegas de trabalho. É importante que se cultive isso e que se construa clima de trabalho satisfatório. Isso é algo que se conquista todos os dias e que não se encontra pronto.”.”

No entanto, ela acha que as provas não foram difíceis, mas, os candidatos tiveram que obter alto índice de acerto justamente em vista da grande concorrência. Em decorrência da sua formação acadêmica na área de Ciências Exatas, sua dificuldade maior foi nas questões jurídicas. “Hoje – fala – a tendência é a de que as provas sejam cada vez mais difíceis, uma vez que a concorrência é maior ainda.”

NOVO CONCURSO

Novo concurso público de Técnico Judiciário e de Analista Judiciário do TRT/Nona Região está se apro-ximando, o que certamente levará milhares de candidatos a tentar uma vaga.

Sobre a questão Rosa Maria Alves Chichorro diz que “o candidato a esse concurso deve ter o ideal de trabalhar para a comunidade, a quem presta importante serviço social. Deve ter em mente que o cliente dele é o trabalhador brasileiro. Tem que possuir vocação para a função, pois a mesma exige dedicação e comprometimento, mas acho válida a procura de emprego que dê segurança e estabilidade profissional. Percebo que as mudanças estão atingindo o serviço público como um todo e que essa suposta segurança de emprego num órgão oficial tende a se igualar àquela de um emprego na iniciativa privada. Mas, reconhecemos que a segurança e o salário de um emprego público ainda é maior se comparados com o que ocorre, hoje, numa empresa privada.”

Rosa Maria lembra que, de acordo com uma recente Resolução do Tribunal Superior do Trabalho, para ser promovido em sua carreira um servidor do TRT tem que passar por cursos, treinamentos, e ainda, avalia-ção de desempenho funcional, o que faz com que o funcionário não se acomode.

“Mesmo exercendo um serviço burocrático – ressalta – o servidor deve procurar a sua realização profissional, executando bem a sua tarefa, aumentando seus conhecimentos e aprimorando as suas relações interpessoais, que são a fonte de realização pela convivência com colegas de trabalho. É importante que se cultive isso e que se construa clima de trabalho satisfatório. Isso é algo que se conquista todos os dias e que não se encontra pronto.”

Rosa Maria ressalta ainda que o trabalho de Técnico Judiciário é gratificante e possibilita ascensão na carreira. “A pessoa deve redescobrir sua criatividade para reinventar o serviço público, contribuindo para um Poder Judiciário mais efetivo, obtendo resultados socialmente relevantes.”

ROSA MARIA ALVES CHICHORRO

Rosa Maria Alves Chichorro possui formação aca-dêmica na área de Ciências Exatas, formada em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Londrina/PR, desde l980.

Exerceu o magistério de primeiro e segundo graus, na cadeira de Matemática, Desenho Geométrico e Física, em Londrina também. Cursou Música Instrumental – piano – e lecionou matérias técnicas relacionadas à área. Na área de Matemática lecionou nas cidades de Cuiabá/MT, Campinas/SP e Porto Alegre/RS, tendo trabalhado ainda em escritório de arquitetura.

Cursou Engenharia Civil porque gostava da área de Ciências Exatas e via como um desafio o fato de uma mulher nela ingressar. Exerceu a profissão de engenheira civil ao longo de dois anos como profissional liberal. Mas, enquanto estudava e depois de formada dava aulas em colégios, o que fez com que, após ingressar no mercado de trabalho, descobrisse que sua vocação era o magistério.

Em conseqüência, deixou de trabalhar como engenheira e dedicou-se ao magistério, “num país onde o educador não é valorizado” – diz ela, acrescentando: “Durante algum tempo passei a fazer aquilo que gostava, mesmo não havendo vantagem financeira. Mas, o crescimento dos meus filhos e novas necessidades financeiras fizeram com que eu optasse pelo concurso público, na busca de colocação que oferecesse melhor remuneração e ainda, me trouxesse realização pessoal e profissional, na certeza de estar contribuindo para o desenvolvimento de um país melhor.”

 

(entrevista publicada no Jornal Concuso & Carreira Edição nº51)