Hoje, como Diretora da Escola Superior de Polícia Civil do Paraná, cargo de relevada importância dentro do organograma do Departamento de Polícia Civil da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Paraná, ela concede entrevista ao Concurso&Carreira, discorrendo sobre a sua trajetória profissional e mostrando a futuras candidatas ao cargo de Delegada de Polícia que atingir os seus objetivos é perfeitamente viável. Experiência profissional global nessa área, tanto na parte administrativa quanto operacional, é o que não lhe falta, pois, acaba de completar 17 anos de serviços prestados ao Estado e à coletividade.
Revela Charis que quando cursava a Faculdade de Direito não tinha intenção de fazer carreira profissional na área da segurança pública, mas, sim da magistratura. Formou-se em Direito em janeiro de 1986, mas, nem chegou a exercer a profissão de advogada, pois, em fevereiro do mesmo ano tomou conhecimento da breve realização daquele que seria o primeiro concurso público para mulheres com vista ao cargo de Delegada de Polícia no Paraná, com abertura de 8 vagas. Até então havia no Estado apenas uma mulher no cargo, a qual havia rea-lizado, por força de decisão judicial, concurso público destinado a homens. No entanto, posteriormente, com o advento da Constituição Federal de 1988, foi possível a realização de concurso nessa área destinado a mulheres.
O concurso de âmbito estadual, em março de 1986, deu a Charis apenas 30 dias para se preparar com vistas às provas, mas, ela tinha uma vantagem que era a de estar recém-saindo da Faculdade. O objetivo do Departamento de Polícia Civil era obter recursos humanos para assumirem Delegacias da Mulher que estavam para serem implantadas em vários municípios do Paraná.
Concorrendo com outras 180 candidatas, Charis Negrão Tonhozi classificou-se em segundo lugar ao final de todas as etapas das provas. “O que me atraiu nesse concurso – diz a entrevistada – foi o fato de enfrentar um desafio, uma nova situa-ção e a oportunidade de participar de um processo pioneiro no Paraná, tanto no que diz respeito a aber-tura de um novo caminho profissional para a mu-lher quanto a implantação das primeiras Delegacias de Polícia Civil destinadas especificamente à defesa dos interesses do sexo feminino. Além disso, vislumbrei uma boa perspectiva profissional.”
Charis não achou difíceis as provas e ela refuta isso em grande parte ao seu estado de empolgação na época e à exuberância da sua juventude, uma vez que tinha apenas 22 anos de idade. Num parêntesis, ela confessa que antes de ingressar na Faculdade de Direito pretendia seguir medicina, mas, sua mãe, preocupada, disse que ser médica não seria bom porque teria que fazer plantões no trabalho. Quando passou no concurso de Delegada, sua mãe ficou mais preocupada ainda, alegando que agora, além dos plantões, Charis ingressaria numa profissão na qual há um natural risco de vida.
Após receber o devido preparo na Escola de Polícia Civil, em Curitiba, Charis foi nomeada ao Cargo de Delegada de Polícia em agosto de 1986.
PIONEIRISMO
Charis Negrão Tonhozi iniciou sua carreira profissional prestando serviços na Delegacia de Acidentes de Trânsito, sendo transferida posteriormente ao Terceiro Distrito Policial, ainda na capital paranaense.
Mas, a sua primeira tarefa de grande envergadura foi implantar e inaugurar a primeira Delegacia da Mulher na cidade de Cascavel, assumindo como Delegada. Permaneceu à frente da Delegacia por cinco anos e meio, prestando serviços na Décima-Quinta Subdivisão Policial.
Cumprida aquela experiência, bastante valiosa na sua vida profissional, Charis retornou a Curi-tiba para trabalhar na Delegacia de Ordem Política e Social, posteriomente na Delegacia Anti-Tóxicos, assumindo depois a assessoria do gabinete do De-legado Geral do Departamento de Polícia Civil.
Seu desempenho levou-a a assumir outros postos, na Assessoria de Planejamento Operacio-nal, na Sala de Imprensa, Quinto Distrito Policial, Delegacia do Adolescente, Divisão de Polícia Especializada, chefia da Divisão de Informática e Telecomunicações, Conselho da Polícia Civil. Foi ainda Corregedora Adjunta e Assessora Civil da Secretaria da Segurança Pública, para então ser alçada ao comando da Escola Superior de Polícia Civil.
Ao longo dos anos Charis adquiriu considerável experiência sobre questões de segurança púbica, abrangendo todos os setores da Polícia Civil, tanto na capital quanto no interior do Estado. Uma das mais antigas Delegadas na ativa, ela atingiu a Primeira Classe, ou seja, o topo da carreira, desde 1999. “Hoje – diz ela – detenho uma visão pa-norâmica de toda a instituição, tanto na parte administrativa quanto operacional.”
De acordo com a delegada, as mulheres somam apenas dez por cento do total de funcionários da Polícia Civil do Paraná. “Apesar do número de Delegadas ser pequeno – explica – praticamente todas elas ocupam posição de destaque dentro da instituição. Em função da Constituição Federal de 1988, houve unificação do quadro de funcionários da Polícia Civil e todas as Delegadas passaram a concorrer a postos em igualdade de condições com os homens.”
|
|
"A Delegada tem dedicação exclusiva ao seu trabalho e deve conciliar isso com outras necessidades suas, o convívio familiar e em sociedade. Há necessidade de compreensão por parte das pessoas próximas em relação à atividade que desempenha também. Mas, é perfeitamente possível conciliar isso tudo”.
|
|
|
|
SEM PROBLEMAS
Há mulheres que estão na situação de esco-lher um caminho profissional a seguir e que resis-tem a idéia de optar por uma profissão, a qual, tradicionalmente, é tida como coisa de homens. A justificativa para tanto é de que elas receiam, quando já na vida profissional, terem dificuldade no relacionamento com o sexo masculino. Como se sabe, muitos homens ainda contam com certa dose de machismo e não admitem conviver com uma mulher que ocupa um cargo como, por exemplo, de Delegada de Polícia.
Charis não qualifica como sendo fácil o trabalho de uma Delegada de Polícia mas ressalta que quando uma mulher decide por uma carreira policial deve ter consciência sobre o papel que vai desempenhar, o que significa atuar em situações que vão desde um simples posto burocrático até a linha de frente em tarefas operacionais.
“A mulher que ingressa na carreira policial – acrescenta – deve saber que está em situação de igualdade com os homens e que receberá a mesma formação deles. Por outro lado, o fato de uma mulher ser Delegada de Polícia não atrapalha em nada a sua vida pessoal particular, a sua convivência com a sociedade, como alguém poderia pensar. Pelo contrário, por ocuparmos uma posição profissional diferenciada e por sermos em pequeno número, somos muito bem acolhidas profissionalmente e no contexto social.”
Destaca ela que o dia-a-dia de uma Delegada de Polícia não é igual ao de uma pessoa que desempenha outra atividade. Há dias tranqüilos e dias bastante atribolados. Há o elemento surpresa, que repentinamente leva a Delega a ser convocada para uma situação especial. “A Delegada tem dedicação exclusiva ao seu trabalho e deve conciliar isso com outras necessidades suas, o convívio familiar e em sociedade. Há necessidade de compreensão por parte das pessoas próximas em relação à atividade que desempenha também. Mas, é perfeitamente possível conciliar isso tudo.”
ESCOLA DE POLÍCIA
A atividade da Escola Superior de Polícia Civil – explica Charis Negrão Tonhozi – é baseada em três eixos principais: formação, capacitação e qua-lificação e especialização dos servidores policiais civis.
A instituição oferece curso de 750 horas/aula, cumprido num período de 4 a 5 meses, proporcio-nando aos policiais civis uma formação profissional inicial. A um policial já na ativa a escola proporciona curso de recapacitação, requalificação e treinamento.
No eixo da especialização, a Escola dá ao policial uma qualificação que lhe permita a ascensão profissional interna. O órgão atende policiais civis de todo o Paraná, convocados ou indicados pelas suas respectivas chefias, sendo que, no exercício de 2003 formou e capacitou cerca de 2.500 servidores, número bastante considerável.
Contando em seu corpo docente tanto com policiais civis quanto professores de outras institui-ções convidados, a Escola, que conta com 69 anos de existência, tem entre as matérias lecionadas em seus cursos os direitos humanos sob a visão do uso legal da força, relações interpessoais, análise sócio-psicológica da violência, matérias específicas dentro da doutrina jurídica, inquérito policial, técnicas de investigação, polícia científica e perícia.
“Nós formamos policiais e cidadãos. Contamos com corpo técnico-funcional capacitado, cons-tante de 40 funcionários, o que nos facilita sobremaneira a tarefa de dirigir a Escola. Por outro lado, num processo de ampliação das atividades acabamos de inaugurar e já está em funcionamento o Campus da cidade de Ibiporã/PR, cujo objetivo é oferecer requalificação, via cursos de curta duração, a policiais civis da região” – diz a Diretora.
DESAFIO
Charis Negrão Tonhozi considera a carreira de Delegada de Polícia, como tantas outras, excelente para a mulher. “Isso – lembra – desde que essa mulher tenha vocação para a atividade policial. Ela se apresenta como um desafio para a mulher e está aberta a pessoas que gostam de desbravar novos horizontes. Obviamente, não é uma carreira na qual impere a rotina de trabalho, pois, as atividades são muitas. É uma carreira de futuro, permitindo a ascensão profissional interna.”
Lembramos a todos os interessados em candidatar-se a um próximo concurso público de Delegado de Polícia ou outro cargo dentro da esfera policial civil, que a Escola Superior de Polícia Civil, localizada no bairro Vila Izabel, em Curitiba/PR, está a disposição para uma visita. Isto, numa deferência especial da Diretora do estabelecimento. Ali os interessados poderão ter uma visão mais aprofundada sobre o funcionamento da Escola e o que é ser um policial civil.