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Finanças Públicas e Economia
Jefferson M. G. Mendes (PR)

22/06/09 - Criação de moeda pelos bancos comerciais

Mais conceitos sobre criação de moeda. a dica é tentar entender estes tópicos e não decorar.

Grande abraço e boa leitura.

 

Os bancos comerciais, que são autorizados a receberem depósitos à vista, são importantes fontes de criação de moeda. Como vimos, temos as moedas fiduciárias e as moedas escriturais, que são criadas pelo banco. Neste ponto veremos como isso ocorre no Brasil.

Os agentes preferem manejar a moeda escritural, comparativamente ao uso da moeda manual, para a liquidação de suas transações. As razões que explicam essa preferência são, em síntese, as seguintes:

Ø       Os depósitos bancários à vista são mais seguros e oferecem maiores garantias aos seus detentores. Comparativamente com a moeda manual, são menos passíveis de perdas e roubo.

Ø       O manejo de cheques, para efetuar pagamentos, é mais fácil, principalmente quando se trata de transações de grande vulto.

Ø       A manutenção de saldos monetários nos bancos comerciais facilita a obtenção de empréstimos, quer por parte das empresas (para o financiamento do processo de produção), quer por parte das unidades familiares (para o financiamento do consumo de bens e serviços, em antecipação a rendimentos que estas esperam auferir no futuro).

Ø       Os pagamentos por intermédio de cheques permitem o melhor controle e a melhor contabilização das despesas, ao mesmo tempo em que podem servir de comprovante para determinadas finalidades legais, especialmente quando nominais e cruzados.

Ø       A concessão de aberturas automáticas e limitadas de crédito, superiores aos saldos existentes, de que são exemplos os cheques especiais, levam os agentes econômicos a se utilizarem, de forma generalizada, dos bancos comerciais como depositários de suas reservas monetárias.

O uso generalizado da moeda escritural, todavia, está na origem de um processo multiplicador que eleva os saldos em meios de pagamento. Isto porque a moeda de alto poder de expansão, como usualmente é considerada a moeda originalmente injetada no sistema econômico por decisão das autoridades monetárias, tende a se transformar em depósitos bancários, por força das razões assinaladas. Subseqüentemente, uma dada parcela de tais depósitos transforma-se em empréstimos concedidos pelos bancos, os quais, por sua vez, tendem a retornar ao sistema bancário, na forma de novos depósitos. Este processo tende a se renovar infinitamente, dado que os bancos comerciais não mantêm em caixa a totalidade dos depósitos captados, mas apenas uma parcela deles.

De uma forma simplificada, o processo se dá da seguinte maneira:

Ø       As autoridades monetárias injetam dinheiro no sistema econômico, ou seja, há um aumento dos meios de pagamento. Por exemplo: vamos supor que o BACEN compra títulos da dívida de um agente no valor de 200 mil reais.

Ø       O agente econômico deposita este dinheiro em um banco comercial. Por simplicidade, consideraremos que o agente deposita todo o dinheiro no banco comercial.

Ø       O banco comercial não mantém a totalidade do depósito em caixa, mas empresta este dinheiro a outro agente. Vamos supor que a relação caixa/depósitos seja de 20%, ou seja, de todos os depósitos à vista feitos no banco, ele mantém 20% em seu caixa, e empresta os restantes 80%.

Ø       Já nesta primeira etapa vemos que o banco comercial criou 20% dos 200 mil reais depositados, ou seja, há uma criação de moeda no equivalente a 160 mil reais. Isso porque os agentes têm a disposição esse montante e o montante inicial de 200 mil reais.

Ø       Os agentes que receberam o empréstimo de 160 mil reais ou aqueles que com esse empréstimo foram pagos efetuarão depósitos neste valor e assim os bancos que receberam esses depósitos concederão novos empréstimos, equivalentes a 80% desse montante, no valor de 128 mil reais. Novamente, sem que os depositantes da primeira e da segunda etapa tenham perdido os seus direitos sobre os depósitos efetuados, o público passa a contar com mais 128 mil reais à sua disposição.

Ø       No final, a moeda criada pelos bancos comerciais será dada pelo depósito inicial no sistema bancário multiplicado por uma constante, que se chama MULTIPLICADOR DOS MEIOS DE PAGAMENTO.

Porém, o modelo apresentado é simples e por isso deve ser visto com certas restrições. Passaremos agora a ver como calcular o multiplicador no Brasil hoje.

Multiplicador dos meios de pagamento no Brasil após as reformas de 1986 e 1994

Os principais conceitos e relações de comportamento para a dedução do multiplicador dos meios de pagamento no Brasil são:

Ø       Meios de pagamento: são constituídos por dois componentes, o papel-moeda em poder do público, PMPP, e os depósitos à vista nos bancos comerciais, nos bancos múltiplos, e nas caixas econômicas, DPBC, MP = PMPP+ DPBC.

Ø       Reservas Bancárias: as reservas bancárias, RES são constituídas pelos depósitos compulsórios dos bancos comerciais e outras instituições incluídas no conceito convencional de meios de pagamento junto ao Banco Central, DBCAM, mais o papel-moeda em caixa dos bancos comerciais, PMBC, RES = DBCAM + PMBC.

Ø       Base Monetária: a base monetária, conceito restrito, B, é dada pelo passivo monetário das autoridades monetárias. É constituída por três parcelas: papel-moeda em poder do público, PMPP; papel-moeda em caixa das instituições identificadas como bancos criadores de moeda, PMBC; e reservas desses bancos junto ao Banco Central, B = PMPP + PMBC + DBCAM.

Ø       Primeira Relação: participação do papel-moeda na composição dos meios de pagamento. Evidencia a proporção em que a moeda manual é utilizada pelo público, PMPP = C*MP ou C = PMPP/MP.

Ø       Segunda Relação: participação dos depósitos à vista do público no conjunto de instituições simplificadamente identificado como bancos comerciais em relação ao total dos meios de pagamento, DPBC = D*MP ou D = DPBC/MP. Cabe assinalar que a soma dessas duas proporções é necessariamente igual a um. Assim: C+D = 1.

Ø       Terceira Relação: proporção do encaixe técnico dos bancos comerciais, a parcela dos depósitos à vista mantida em caixa, PMBC = R1* DPBC ou R1 = PMBC/ DPBC.

Ø       Quarta Relação: proporção das reservas bancárias junto ao Banco Central, preponderantemente dada pelos recolhimentos compulsórios sobre depósitos à vista, DBCAM = R2* DPBC ou R2 = DBCAM/ DPBC.

Partindo das definições e das relações de comportamento dadas, podemos deduzir a expressão do multiplicador dos meios de pagamento no Brasil, k:

k = MP/B = M1/B

Substituindo pelas definições atuais, temos:

k = PMPP+ DPBC / PMPP + PMBC + DBCAM

Procedendo a substituição de cada uma das categorias incluídas nas definições de meios de pagamento e de base monetária pelas correspondentes relações de comportamento, temos:

k = C*MP + D*MP / C*MP + R1* DPBC + R2* DPBC

Como R1* DPBC = R1*D*MP e R2* DPBC = R2*D*MP, podemos reescrever a expressão da seguinte forma:

k = C*MP + D*MP / C*MP + R1*D*MP + R2*D*MP

Colocando MP em evidência, temos:

k = MP* (C+D) / MP* (C + R1*D + R2*D)

Cortando MP no numerador e no denominador, obtemos:

k = C + D / C + R1*D + R2*D

Mas como C+D=1, e colocando no denominador D em evidência, obtemos finalmente o Multiplicador dos Meios de Pagamento no Brasil:

k = 1/ C + D * (R1 + R2) = M1/B

A expressão indica que, quanto maiores forem as reservas bancárias (encaixes técnicos mantidos pelos bancos criadores de moeda e seus depósitos compulsórios e voluntários no Banco Central), menor deverá ser para iguais relações de comportamento referente à composição dos meios de pagamento, o multiplicador da moeda escritural. Quanto às relações de comportamento, cabe notar que maiores parcelas dos meios de pagamento mantidas em poder do público sob a forma de papel-moeda implicam, mantidas inalteradas as demais variáveis, menor magnitude do efeito multiplicador.


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